4 de mar. de 2006

Encontros

"Suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta.O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia".

Sobre o amor, etc - Rubem Braga

Ouvi um amigo dizer que, em encontros, é normal ocorrer uma necessidade imensa
de conversar com quem não vemos há muito tempo. O que me intriga é ver como isso é passageiro. Depois de algumas conversas bem animadas, não há mais o que se
falar. Todas as novidades foram contadas, a amizade foi renovada, mas a saudade
acabou. Não há por que falar e falar e falar. E ai, mais uma vez ocorre o distanciamento. Será que as amizades têm de necessariamente esfriar dessa forma?
Penso em tantas pessoas que passaram pela minha vida e que, na época pareciam
ser fundamentais, mas aí vem o tempo, as circunstâncias, a vida corrida, e acabamos falando apenas um “olá!” de vez em quando. Alguém pode dizer que verdadeiras amizades perduram, que não há necessidade de se falar todo dia para saber como um amigo está. Tá bom, eu sei disso. E concordo. Mas falando francamente, sabemos que não será a mesma coisa. As vivências diferentes fazem com que uma amizade, que era cheia de semelhanças, enfraqueça e torne-se apenas em uma gostosa lembrança. É inevitável ... e triste!


"Agora folheio outras cartas de amigos e amigas; são quase todas de apenas dois ou três anos atrás. Mas, como isso está longe! Sinto-me um pouco humilhado pensando como certas pessoas me eram necessárias e agora nem existiriam mais na minha lembrança se eu não encontrasse essas linhas rabiscadas em Londres ou na Suíça.
(...)
Imagino que em algum lugar do mundo há alguém que neste momento remexe, por acaso, uma gaveta qualquer, encontra uma velha carta minha, passa os olhos por curiosidade no que escrevi, hesita um instante em rasgar e depois a devolve à gaveta com um gesto de displicência, pensando talvez: “é mesmo, esse sujeito onde andará? Eu nem me lembrava mais dele...” E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta, cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de guardá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida – essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la".

Velhas Cartas - Rubem Braga


2 comentários:

Anônimo disse...

Ei, mó legal esse texto!!Adoro guardar cartas antigas... tenho umas das minhas amigas da 6a série. Acho q as guardo pra me lembrar como eu era e como as minhas amigas me viam naquela época!!Gosto de lembrar o passado, as vezes me prendo nele, viajo, revivo... Esse texto me fez lembrar de tanta coisa!!!Mto bom!!

Anônimo disse...

Tbm gostei desse texto.Achei ele meio nostálgico e comecei a lembrar de algumas pessoas que naum me lembrava faz tempo.O Rubem Braga é ótimo!E seu blog tá cada vez melhor Grazi!Bjos E abraços!