28 de fev. de 2006

As Luvas


Hoje estava lendo o livro “200 crônicas escolhidas” de Rubem Braga. Esse livro
faz parte do Kit Carnaval. Como eu detesto esse feriado (só gosto do fato de ser
feriado), aluguei dois livros na biblioteca e estou lendo aos pouquinhos...quando não estou dormindo ou aqui na net, é claro. Já viram como estão sendo meus dias, né?! Enfim, estava lendo uma crônica que definiria como...hummm, não sei como. Ao mesmo tempo em que ela é simples (até por ser uma crônica), é também profunda. Não sei se “profunda” seria a palavra correta. O que quero dizer é que ela trata de um simples objeto, mas que conduziu o escritor a muitas lembranças e reflexões. Me impressionou a forma que ele descreve o tal objeto – um par de luvas. Eu mesma nunca pensei num par de luvas dessa forma! “dobras das falanges”, “fisionomia dos dedos”, “rugas da vida”. Isso só mostra que o cara é genial!

Divirtam-se!!!

LUVAS
Rubem Braga

Só ontem o descobri, atirado atrás de uns livros, o pequeno par de luvas pretas. Fiquei um instante a imaginar de quem poderia ser, e logo conclui que sua dona é aquela mulher miúda, de risada clara e brusca e lágrimas fáceis, que veio duas vezes, nunca me quis dar o telefone nem o endereço, e sumiu há mais de uma semana. Sim, suas mãos são assim pequenas, e na última noite ela estava vestida de escuro, os cabelos enrolados no alto da cabeça. Revejo-a se penteando, com três grampos na boca; lembro-me de seu riso e também de suas palavras de melancolia no fim da aventura banal. Eu quis ser cavalheiro, sair, levá-la em casa. Ela aceitou apenas que eu chamasse um táxi pelo telefone, e que a ajudasse a vestir o capote; disse que voltaria.


Talvez telefone outro dia, e volte; talvez, como aconteceu uma vez, entre suas duas visitas, fique aborrecida por me telefonar em uma tarde em que tenho algum compromisso para a noite. "A verdade" - me lembro dessas palavras de uma tristeza banal - "é que a gente procura uma aventura assim para ter uma coisa bem fugaz, sem compromisso, quase sem sentimento; mas ou acaba decepcionada ou sentimental...” lembro a letra de uma música americana I Am Getting Sentimental over You. Ela riu, conhecia a canção, cantarolou-a um instante, e como eu a olhasse com um grande carinho meio de brincadeira, meio a sério, me declarou que eu não era obrigado a fazer essas caras para ela, e dispensava perfeitamente qualquer gentileza e me detestaria se eu quisesse ser falso e gentil. Juntou, quase nervosa, que também não lhe importava o que eu pudesse pensar a seu respeito; e que mesmo que pensasse o pior, eu teria razão; que eu tinha todo o direito de achá-la fácil e leviana, mas só não tinha o direito de tentar fazê-la de tola. Que mania que os homens têm...

Interrompi-a. Que ela, pelo amor de Deus, não me falasse mal dos homens; que isso era muito feio; e que a seu respeito eu achava apenas que era uma flor, um anjo y muy buena moza.

Meu bom humor fê-la sorrir. Na hora de sair disse que ia me dizer uma coisa, depois resolveu não dizer. Não insisti. "Telefono”. E não a vi mais.

Com certeza não a verei mais, e não ficaremos os dois nem decepcionados nem sentimentais, apenas com uma vaga e suave lembrança um do outro, lembrança que um dia se perderá.

Pego as pequenas luvas pretas. Tem um ar abandonado e infeliz, como toda luva esquecida pe1as mãos. Os dedos assumem gestos sem alma e, todavia tristes. É extraordinário como parecem coisas mortas e ao mesmo tempo ainda carregadas de toda a tristeza da vida. A parte do dorso é lisa; mas pelo lado de dentro ficaram marcadas todas as dobras das falanges, ficaram impressas, como em Verônica, as fisionomias dos dedos. É um objeto inerte e lamentáve1, mas tem as rugas da vida, e também um vago perfume.

O telefone chama. Vou atender, levo maquinalmente na mão o par de luvas. A voz é de mulher e hesito um instante, comovido. Mas é apenas a senhora de um amigo que me lembra o convite para o jantar. Visto-me devagar, e quando vou saindo vejo sobre a mesa o par de luvas. Seguro-o um instante como se tivesse na mão um problema; e o atiro outra vez para trás dos livros, onde estavam antes.


Santiago, outubro, 1955.

Nenhum comentário: